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Notícias

Obras longe da conclusão

Trabalhos sob a responsabilidade da Cehab tiveram início em setembro de 2013, com gasto estimado de cerca de R$ 500 milhões, mas apenas um trecho foi entregue

21/07/2021 - Fonte: Jornal do Commercio - Cidades
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Na Cidade Baixa de Olinda, as águas ditam o modo de vida dos residentes. As garagens dos carros estão sobre camadas de concreto, os eletrodomésticos das casas são suspensos e os móveis são escolhidos pelo tipo de madeira mais capaz de aguentar as enchentes. A intensa ocupação urbana da área, nas últimas décadas, tornou necessária a criação de projetos com o objetivo de escoar as chuvas e proteger os moradores. O maior deles vem tendo as obras arrastadas por mais de oito anos, sem previsão de término: o Canal do Fragoso, uma história que é contada inverno após inverno e ainda cobrada por quem mais dele precisa.

É o caso do arqueólogo José Aylton. Depois da enchente de 2016, que fez com que parte dos olindenses vissem seus pertences serem levados pela água, o morador reestruturou a casa para evitar novas perdas. "Meus sofás estão suspensos. Depois das cheias de 2016, que chegaram a 1,6 metro em casa, subi meus quadros para essa altura." Ainda durante as chuvas de abril deste ano, ele mediu um metro de altura de água na residência.

Segundo o professor de geologia da Universidade Católica de Pernambuco Fábio Pedrosa, as inundações em Olinda, assim como no Recife, acontecem por uma característica natural da cidade - o que torna a drenagem essencial. "Ela tem partes muito baixas, quase a nível do mar. As obras têm que preservar as áreas marginais, que não devem ser ocupadas. Há também a necessidade da preservação de todas as áreas verdes possíveis do município. Um exemplo são os manguezais, porque eles absorvem os excedentes hídricos tanto das águas das chuvas, quanto os provenientes das marés mais altas", explica.

Nesse contexto ambiental, o Canal do Fragoso teve as obras licitadas em 2012 e iniciadas em setembro de 2013, sob a responsabilidade da Companhia Pernambucana de Habitação e Obras do Estado (Cehab), da então Secretaria das Cidades - do governo federal - e da Prefeitura de Olinda. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) diz que a obra é a maior dessa natureza na Região Metropolitana de Recife, com gastos em torno de R$ 500 milhões.

Até agora, a Cehab entregou, em maio de 2020, apenas a primeira fase: o Canal Fragoso I, com serviços em 940 metros do canal dos Bultrins. O Canal Fragoso II, que prevê o revestimento de com 2,1 km do equipamento, que tinha prazo estabelecido de 18 meses em 2013, "segue no aguardo da aprovação para abertura de licitação", segundo a pasta. As lagoas de retenção, sob responsabilidade da Prefeitura de Olinda, não foram iniciadas, por também estarem "em processo de licitação" com previsão de conclusão em agosto.

O engenheiro civil e integrante do Grupo de Recursos Hídricos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Jaime Cabral, explica que, pelas características físicas já citadas da Cidade Baixa, a intensa ocupação de Olinda fez com que, nos últimos 30 anos, as águas começassem a escoar para áreas que foram aterradas pela própria população. Assim, a não finalização do Canal impede a mitigação desses alagamentos, mas, mesmo quando estiver concluído, o problema deve persistir.

"Olinda tem uma região muito baixa, e o que comanda o processo de escoamento das águas é o mar. Se está na maré alta, a água não consegue escoar. Mesmo quando o canal estiver pronto e tiver na maré alta, ainda vai ter alagamento. As pessoas da região têm que ficar conscientes que estão morando em um local vulnerável e ficar atentas a ameaças de chuvas fortes", diz. Uma outra obra de mitigação seria, para ele, o alargamento do espaço embaixo da Ponte do Janga.

A cerca de 2 km da Avenida Ministro Marcos Freire, beira mar de Olinda, ribeirinhos vivem em meio ao lixo excessivo, saneamento básico precário, falta de calçamento da pista e de luz à noite nos postes públicos. "Ninguém olha para a gente. Quando chove, é buraqueira [na rua]. Quando enxuga, é poeira. Ninguém aguenta estar aqui. Tenho cinco filhos, e é difícil criá-los nessa situação, mas a gente não tem condição de morar em um canto melhor", desabafa o pedreiro Joseildo da Silva, 41.

Em relação ao lixo, a Prefeitura de Olinda informa que tem feito ações de remoção com frequência. "No dia 10 deste mês, por exemplo, foi realizado o serviço de limpeza e 260 toneladas de material foram removidas", diz a nota. Quanto à iluminação, uma equipe irá ao local para avaliar qual tipo de manutenção é necessária.

Em relação à pavimentação, a Cehab diz que ainda realiza obras referentes à 1ª etapa da Via Metropolitana Norte, e alega que não houve conclusão por causa do período de chuvas, mas que haverá intensificação dos serviços em setembro.

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