No centenário do nascimento do geógrafo Milton Santos em 2026
Por Elka Porciúncula — junho de 2026
Para alinhar a economia política à necessidade de cidades sustentáveis, a obra de Milton Santos oferece uma interpretação precisa. O grande desafio urbano não é a altura dos edifícios, mas a lógica que os governa.
Na geografia de Milton Santos, o capital global opera por meio de “Verticalidades” que são os fluxos abstratos de poder, finanças e decisões concentradas. Quando essas forças aterrissam nas cidades sem regulação, elas distorcem a verticalização física: transformam prédios altos em enclaves isolados e muros cegos, destruindo a vida pública da calçada.
Por outro lado, o crescimento horizontal que promove o espalhamento urbano é um possível vetor de segregação e ineficiência. Espalhar a cidade significa encarecer de forma insustentável a infraestrutura — como saneamento, transporte, serviços — e empurrar as horizontalidades da vida cotidiana e a população de menor renda para periferias desprovidas de tudo, roubando-lhes o tempo em deslocamentos exaustivos.
Refletindo sobre o conceito da “Verticalização Compacta” como solução para os “15 Minutos acesso a pé”, compreendemos que a verticalização física e concêntrica não é a vilã, ela é a solução técnica indispensável. É a alta densidade que gera a massa crítica necessária para viabilizar serviços, comércios e transporte público de qualidade a 15 minutos de caminhada.
Temos que refletir sobre o paradoxo do medo e o sentimento de exposição ao risco e insegurança urbana que não se resolvem espalhando a cidade e criando muros, mas sim desenhando edifícios altos que se abrem para a rua e, em paralelo, uma boa gestão urbana.
A Instigação de Milton Santos para a Habitação Multifaixa, nos leva a utilizar essa visão para guiar a produção habitacional, a proposta de edifícios verticais para diversas faixas de renda nas áreas centrais torna-se uma ferramenta poderosa de democratização do espaço:

“O espaço é o sistema de objetos e o sistema de ações. O cidadão é aquele que habita um espaço onde a sua presença é um direito.”
— Milton Santos
Ao utilizarmos o adensamento vertical inteligente para produzir habitação multifaixa, estamos aplicando três princípios fundamentais:
1. A Otimização das “Zonas Luminosas”
Em vez de reservar as áreas centrais e dotadas de infraestrutura técnica e de serviços exclusivamente para uma classe específica ou um tipo de serviço, a verticalização habitacional permite multiplicar o solo urbano, trazendo diversas faixas de renda para o coração das oportunidades.
2. A “Fachada Ativa” contra a Opacidade

O edifício vertical deixa de ser fechado em si mesmo e passa a ter o térreo integrado à calçada com comércio e ou serviços. Isso gera os “olhos da rua” de que a segurança precisa, combatendo o sentimento de risco por meio da vitalidade, e não do isolamento.
3. A “Convivência” como Segurança

A proximidade física e vertical das diferentes classes sociais força o poder público a universalizar a qualidade urbana daquela região, provocando a gestão urbana a promover espaços públicos abertos e seguros. A segurança deixa de ser uma mercadoria privada protegida por muros e passa a ser um bem coletivo gerado pela coesão social e pelo movimento de rua. Esse processo deve ser associado a um controle urbano essencial, integrado às novas tecnologias das Smart Cities e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
A provocação final que nos instiga a obra de Milton Santos é técnica e política: a verticalização física é uma aliada extraordinária. O papel do planejamento urbano é garantir que o direito de morar em altura, com infraestrutura e tempo livre, seja compartilhado por todas as faixas de renda no mesmo território concêntrico.
Enfim, concluo que o “ato de pensar nos evolui” e trabalhar um pensamento com base na obra de um dos maiores intelectuais brasileiros engrandece nossas ideias.





